Só Antígona porque Ismênia

3 Abr

por Bernardo GB Nogueira e Ramon Mapa da Silva

Desistiu de ser Ismênia!

Essa é a ode para onde somos conduzidos pelo espetáculo Doce Ismênia. O olhar do humano é fantástico, pois ele, ao se exercer, na realidade, cria!

Esse assombro a partir da interpretação realizada acerca da tragédia toma de assalto. Parece-me que seu olhar e sensibilidade captaram essencialmente o que traduz a existência trágica, ou seja, ao buscar algo que torne a existência humana explicável, e assim, passiva de ser guiada racionalmente, aí é que a fortuna nos toma pelas mãos e daí em diante é só tragédia… pois, quando quis construir sua tragédia, Ismênia se tornou comédia.

Ismênia foi erguida de forma a torná-la realmente uma partícipe terrivelmente audível ante o coro trágico que conduziu sua família, isso com a perspicácia de reconciliar o clássico com o contemporâneo.

Só existe Antígona porque sua irmã permitia a ela lutar pela vida do irmão. Ismênia tornou-se intensamente protagonista, tanto que em suas poucas falas na tragédia, suas ações que não são alvo de reflexões, em verdade, são elas que realizam mesmo a tragédia. A tragédia que os atores que não jazem sob os holofotes sentem, ora, para que a luz recaía sobre Antígona, necessariamente não poderia cair sobre Ismênia, e essa dialética negativa é que permite estarmos junto de Antígona depois de tantos séculos. O silêncio de Ismênia permite a fala de Antígona. As ações temperadas da irmã insignificante permitem-nos o encantamento face ao destemor de Antígona.

Ademais, quando recai sobre Ismênia o peso de necessariamente ter uma existência trágica, ela o recebe da mesma forma como viveu sempre. De forma grandiosa e “doce”. Quis ter uma vida silenciosa e recatada para que assim o seu contrário, a irmã, pudesse viver esplendorosamente sua tragédia. Ousou calar, diria, e essa talvez seja a forma mais trágica em um existir em meio ao palavrório que nos cerca.

A coxia e os bastidores são os locais preferidos de Ismênia. O silenciar daquela personagem na verdade é o mais alto grito trágico. Lutar pelo irmão é fácil quando o páthos está a nos arrebatar. Guerrear no campo de batalha é o normal. Dar a mão para o inimigo, não. Difícil, diria, trágico, é silenciar quando o mais óbvio é o grito, a resignação talvez seja uma das formas mais claras de manifestação de uma tragédia… Quando Ismênia desistiu de ser Ismênia, trouxe para si a verdadeira face da tragédia, aceitá-la como inevitável.

Ismênia é âncora. Presa a uma realidade da qual Antígona é a mais tremenda negação. Seja na forma de sua fantasia pecaminosa e incestuosa de deitar-se com seu amado irmão, seja em suas ações que violam a norma do Estado e desafiam a ordem estabelecida, o que opõe Ismênia à Antígona é o que opõe realidade e delírio. Tudo o que importa em Ismênia é o oposto total do que importa em Antígona, ainda que num amálgama próprio da grande arte, essas oposições se complementem na compreensão do humano como ser lançado no mundo e que busca, incessantemente, conhecer a si mesmo.

A compreensão da realidade pressupõe, em todos os níveis, a compreensão das fantasias que nos permitem suportá-la. Ler Antígona e entender Antígona só é possível se o olhar que dirigimos à peça e à sua protagonista cruzarem antes por Ismênia, porque Antígona é a fantasia que permite que a “realidade Ismênia” seja vivida e compreendida sem cair no mais vazio dos desesperos e Ismênia é a realidade que nos permite respirar depois que Antígona enlaça a forca ao redor do pescoço. O sacrifício heroico de Antígona nos permite olhar com mais resignação para o dramático destino de sua irmã, desamparada, afogada na solidão inelutável da morte de todos os seus. Do sofrimento pela morte do amado irmão, Antígona se esvai pela via radical do suicídio.

Ismênia sobrevive para lamentar por ambos. Contra a estrutura social que reduzia à mulher a um ser doméstico e emudecido, de vida servil e incompleta, Antígona se rebela de forma decidida, impositiva, violenta, quase “masculina”. A resignação de Ismênia é oposição contra a mesma estrutura, mas por um outro caminho, o do sofrimento que redime tudo, transcende a tudo, em sua forma mais patética e incompreensível. Antígona é o delírio de Ismênia, Ismênia em delírio, fantasiando um mundo onde as mulheres têm voz, ainda que seu vociferar resulte em tragédia, como os das sereias.

Fazer falar Ismênia. Aqui reside toda a beleza do contrassenso. Porque o belo em Ismênia, o dramático (mais até do que o trágico) em Ismênia, é o seu silêncio. É o condenar-se pela inércia, como Antígona se condena pela ação. Mas o fado de Antígona se encerra com o laço de uma forca, o de Ismênia não termina mais. No mais terrível escárnio, preferiram as Parcas que sua vida não acabasse, nunca mais. Que ela permanecesse pairando em fantasmagoria, um ectoplasma da realidade em meio ao delírio trágico. Desconhecer o destino de Ismênia é tanto mais dramático quanto mais certeza se tem de que ela permaneceu viva. O alento que sua família, marcada pelos atos monstruosos de Laio e Édipo, encontrou com a morte, não serviu de cobertor para ela. Ismênia é como Caim, destinada a viver para sempre, carregando, gracilianamente, aquele gosto amargo de vida nos lábios. O que difere Caim de Ismênia é que o delírio de Caim é um anti-delírio. Ele não quer matar seu irmão, quer matar a fé em Deus, ou Deus Ele mesmo. E pelo irmão mortal ele se torna imortal.

Ismênia não quer que a irmã morra, mas quer que a tragédia acabe, sua inércia em detê la, seu crime por omissão, é o resultado de seu delírio que quer conciliar o trágico, custe o que custar. E pelo suicídio de Antígona, Ismênia se torna imortal no eterno questionamento sobre seu destino. Ismênia e Caim, condenados à fantasmagoria eterna pela ausência de seus duplos de ventre. E da mesma forma que aquele que ergue a mão contra Caim é vingado sete vezes, quem toca em Ismênia não sai incólume. Atribuir-lhe o epíteto “doce” não impede o retorno de toda a realidade visceral que Ismênia representa e da qual Antígona é a encenação mítica e fantasiosa que lhe serve de véu. Olhar para Ismênia perto demais é como abrir o cérebro tentando buscar onde os sonhos moram.

Mas Ismênia ainda é âncora, e sua função dramática está justamente em mostrar que resta algo infinito diante da finitude quase onipresente, marca do trágico e do próprio humano em si. Seus pais e irmãos reafirmam a finitude humana, assim como os mortos de guerra, já Ismênia reafirma o infinito do sofrimento patético e inconsolável, como o dos pais que sobrevivem aos filhos. Herdeira sem herança, irmã de irmãos mortos, filha de pais mortos, atropelada pela procissão irrefreável do destino trágico que ela não compartilha, Ismênia resta relegada à mais dura realidade, concretizada em sua solidão e luto. Solidão e luto que a peça de Sófocles também ignora. Solidão e luto por tudo o que morre, porque ao redor de Ismênia, tudo morre. Só ela permanece viva, dramática e real. Não seria essa a mais trágica das tragédias? Permanecer, perene como uma falésia, enquanto tudo mais se desfaz e desmorona, como as ondas que a falésia observa?

Ismênia não pode se desfazer de seus olhos e suas memórias, e Doce Ismênia é, em suma, uma peça sobre o que se viu e o que se lembra. Não o que se viu e o que se lembra em Antígona, a peça de Sófocles, mas o que se viu por aí, num mundo grande demais e que por isso só pode existir em um personagem, em uma peça de teatro, o que se viu em uma realidade grande demais para ser lembrada e guardada em um livro de história, e que por isso só pode viver na arte, nessa Doce Ismênia, que dá à Ismênia aquilo que a tragédia esqueceu de dar: um destino.

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